segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Reconstrução facial, chance de recomeço, agora pelo SUS


Os cirurgiões Romualdo Froes e Daniel Gaziri estão à frente da equipe
que realiza as cirurgias na Santa Casa (foto: Gilberto Abelha/JL)
Reportagem publicada em 15/08/2011 no Jornal de Londrina
Link da notícia: http://www.jornaldelondrina.com.br/online/conteudo.phtml?id=1157487

Reconstrução facial, chance de recomeço, agora pelo SUS


Técnica inovadora e que confecciona próteses cranianas a partir de moldes em 3D está sendo utilizada por equipe da Santa Casa de Londrina também em quem não pode pagar pelo tratamento 

 
Francismar Lemes, especial para o JL

O encontro com um novo rosto no espelho também é o recomeço da vida para pessoas que tiveram a face desfigurada por acidentes. A cirurgia de reconstrução facial é complexa, mas agora pode ser realizada em Londrina pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com técnica inovadora de impressão 3D de moldes de prótese craniana.
Quatro intervenções de reconstrução facial foram realizadas este ano pelo Ambulatório de Deformações Crâniofaciais da Santa Casa de Misericórdia de Londrina (Iscal). Uma nova paciente está se preparando para a cirurgia, que é uma esperança para pessoas que não têm condições de pagar pelo procedimento.
Desafio é atender a demanda
Londrina está formando equipe de profissionais para cirurgias de reconstrução facial com um grande desafio: atender a demanda. A próxima paciente a ser submetida à cirurgia é uma jovem de 22 anos, vítima também de acidente de motocicleta. A paciente, de Presidente Prudente (SP), perdeu parte do hemisfério esquerdo de massa encefálica e crânio. O cirurgião plástico Romualdo Froes explica que o cérebro tenta expandir, mas a pele acaba aderindo, o que provoca o afundamento craniano e deformações, que podem ser corrigidas com a cirurgia de reconstrução. Froes comenta sobre a cirurgia realizada em um menino de 7 anos, que viajava no banco traseiro do carro, sem cinco de segurança. O choque desfigurou a face do garoto, que depois de ser submetido ao procedimento cirúrgico de reconstrução recuperou-se satisfatoriamente. Os aspectos sociais das graves deformidades são grandes. O médico conta que o garoto que deixou de frequentar a escola, voltando aos estudos, depois da intervenção.
À frente da equipe, o cirurgião plástico Romualdo Froes e o cirurgião bucomaxilofacial Daniel Augusto Gaziri, que utiliza a técnica desenvolvida em seu mestrado “Fraturas de Complexo Zigomático e Órbita” pela Pontifícia Universidade Católica, do Rio Grande do Sul (PUC-RS). De uma maneira simplificada, a técnica é aplicada ao conjunto de ossos malar de que faz parte o assoalho da órbita ocular.
Recém-operada, a atendente de farmácia aposentada Maria Cristina da Silva, 33 anos, nos próximos 40 dias, tempo de recuperação do procedimento, irá encontrar o novo rosto e tentar apagar um pouco as marcas e os reflexos em sua vida do acidente de motocicleta. Maria Cristina tinha fratura frontal da face complexa e dos ossos malar. A diferença entre um lado e outro do rosto e dos olhos era de quase um centímetro.
“A diferença de altura entre os olhos fazia com que o cérebro anulasse uma das visões. A paciente enxergava somente com o olho esquerdo. Quando tentava fundir as duas imagens tinha visão dupla. Não conseguia ler, tropeçava constantemente”, explica o cirurgião plástico Romualdo Froes. Desde o acidente, há seis anos, os ossos fraturados da paciente cicatrizaram em posição irregular, o que torna cirurgias, como essa, ainda mais difíceis.
O trabalho envolveu a participação dos dois cirurgiões e o auxílio da tecnologia de impressão 3D para a confecção da prótese biocompatível, implantada na região em que a paciente teve perda óssea. Durante a fase de preparação para a cirurgia, Maria Cristina fez uma tomografia com recortes finos do crânio, que guiou a confecção do molde para a prótese.
“A peça vem pronta para a cirurgia, o que diminui o tempo do procedimento em até uma hora. A precisão da técnica em que o molde é preparado antes da cirurgia, ao contrário de outros procedimentos, é uma das grandes vantagens”, afirma Gaziri, acrescentando que são grandes as expectativas de bons resultados da cirurgia.
Os dois cirurgiões destacam a importância da realização do procedimento pelo SUS e da triagem inicial para o encaminhamento ao Ambulatório Deformações Crânio-Faciais, da Santa Casa, feita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). “Tudo o que a gente faz para pacientes, como Maria Cristina, é para que tenham esperança de poder voltar à vida”, afirma Gaziri.

Para Maria Cristina foi como reconstruir a própria vida
A reconstrução facial vai além dos aspectos estéticos e funcionais, devolvendo aos pacientes grande parte da vida e a autoestima. Maria Cristina da Silva esperou seis anos para reconstruir a própria história praticamente interrompida pelo acidente de motocicleta.
Maria Cristina ainda está se recuperando do procedimento cirúrgico. Marcos Aparecido da Silva, 38 anos, irmão da atendente de farmácia aposentada, lembra que a irmã nunca perdeu a alegria pela vida, apesar de ser alvo da curiosidade das pessoas na rua.
“Com a prótese mudará muita coisa. A Maria Cristina nunca se abateu ou se entregou. Não esperávamos que fosse conseguir a reconstrução da face, mas foi uma conquista, depois de anos”, afirma Silva, contando ainda que a irmã ficou em coma na UTI por três meses. Ela pilotava a motocicleta e usava capacete, mas, apesar do equipamento de segurança, as lesões foram graves.
O cirurgião plástico Romualdo Froes ressalta que, nesses casos, não é possível fazer distinção entre a necessidade estética ou funcional.
“Infelizmente, a sociedade rejeita as deformidades, o que faz a gente ver que até a estética e tudo mais têm um papel funcional. Tínhamos que tentar fazer alguma coisa para a Maria Cristina porque o acidente destruiu a vida, relacionamentos e a autoestima dela”, afirma Froes.