segunda-feira, 24 de agosto de 2015

BIOENGENHARIA - Dentistas usam impressão 3D em reconstrução facial

Conhecida pela precisão, técnica possibilitou implante de prótese de titânio em paciente do Norte Pioneiro



- Cirurgiões José Augusto Camargo, Daniel Gaziri e Marcos Guskuma relatam que antes da intervenção foram necessários dois anos de preparação até a impressão em 3D da prótese de titânio - 


Apaixonado por futebol, o servidor público Aldecir dos Santos Costa, de 49 anos, nunca imaginou que seria uma das primeiras pessoas a passar por uma cirurgia de reconstrução facial com uso de impressora 3D em Londrina. A jornada até o procedimento que o deixaria novamente satisfeito com sua aparência ocorreu dez anos depois de um acidente num jogo de futebol entre amigos. De uma pancada recebida no rosto, quando o zagueiro tentou cabecear a bola para longe do gol, surgiu um tumor no osso. Uma parte da mandíbula direita precisou ser removida, dando lugar a uma prótese de titânio.

Se o resumo da história parece simples, a jornada de Costa, morador de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro), até receber o implante não foi nada óbvia. O tumor na mandíbula do paciente, aos poucos, criou uma diferença de altura entre os lados do rosto dele. O queixo foi empurrado para o lado esquerdo. Enquanto o lado que levou a pancada contava com 66 mm de altura, o outro apresentava 88 mm. Eram mais de 2 centímetros de diferença de um lado para o outro da face. Costa chegou a ser desacreditado por profissionais de saúde e a pensar que não conseguiria resolver o problema. 

"Ele chegou ao nosso consultório sete anos depois do acidente. Tinha uma assimetria facial que conseguimos visualizar bem pelos exames. Vimos que o tumor estava crescendo e que aquela parte precisaria ser retirada", relata o dentista Marcos Guskuma, um dos cirurgiões bucomaxilofaciais responsáveis pela cirurgia do servidor público. Também fizeram parte desta equipe os dentistas Daniel Gaziri, José Augusto Camargo e Eduardo Hochuli Vieira. O procedimento, realizado no Hospital Araucária, teve seis horas de duração. 

Antes da intervenção foram necessários dois anos de preparação até a impressão em 3D da prótese de titânio para Costa, nos Estados Unidos. O paciente usou aparelho ortodôntico para corrigir a arcada dentária inferior – cuja posição foi alterada pela assimetria do rosto. Também foi preciso produzir uma nova dentadura para ele na parte superior, que usava uma feita de acordo com a posição dos dentes de baixo. "A nova dentadura serviu como nosso guia para voltar a face no lugar certo. Foi preciso colocar alguns ganchos de aparelho na prótese, que fizemos de sulfato de bário, para que ela aparecesse também nas radiografias", relata Guskuma. 

O terceiro passo da equipe foi encaminhar para os Estados Unidos uma tomografia do rosto do paciente. A TMJ Concepts, empresa sediada na Califórnia e especializada em fabricar próteses sob medida, usou os dados do exame para produzir um biomolde. "Nos mandaram uma impressão em 3D, em resina, da face. Primeiro, fizemos a ‘cirurgia’ neste molde e encaminhamos de volta para os EUA. Lá, eles fizeram o planejamento da prótese de titânio", explica o dentista. 

Feita a arquitetura da placa em cera, o implante foi simulado no biomolde e enviado para o Brasil pela empresa. Depois que o material foi aprovado pela equipe, foi feita a impressão em 3D, em tamanho real, da prótese de titânio. No caso de Costa, a placa teve 8 centímetros de comprimento. O encaixe, segundo Guskuma, foi perfeito, bem diferente de quando se trabalha com próteses pré-fabricadas. "A precisão é muito grande. Podemos dizer que é a melhor técnica que temos na área", defende o profissional.
Apesar de ser um procedimento novo, a reconstrução
 facial com auxílio de impressoras 3D é uma
 intervenção segura

‘Em nenhum momento tive medo’

O lance de futebol que culminou na cirurgia com impressora 3D na face do funcionário público Aldecir dos Santos Costa ficou na memória dele. Na ocasião, além da pancada no queixo, ele teve fraturas no nariz e na face, perto do olho direito. Pensou ser coisa simples, mas com o tempo, passou a perceber mudanças no rosto. "Não sofri nada na mandíbula, mas percebi que estava puxando para um dos lados, apesar de nunca ter sentido dor. Conforme puxava mais o queixo para o lado, a abertura da boca diminuía", relata o paciente.

A dificuldade, comenta, era maior em relação à alimentação e não à estética. Mesmo assim, ele diz se sentir satisfeito com o resultado ainda no pós-operatório. "Fiquei muito contente com a cirurgia. Em nenhum momento tive medo por ser uma técnica nova. Tenho muita confiança na equipe que me operou. Sabiam explicar, dialogavam comigo. Também coloquei Deus na frente", afirma.

Costa admite que sente um pouco de dor na recuperação, já que, além da cicatrização, ainda usa borrachinhas para ajudar a deixar as arcadas dentárias superior e inferior na posição de mordida correta. Ele também deve começar em breve fisioterapia para os músculos do rosto. Passado este período de tratamento, ele já sabe bem o que fazer. Quer voltar a jogar futebol. (A.L.)


Antoniele Luciano
Reportagem Local


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Publicação Folha de Londrina em 29 de agosto de 2015 - Coluna Social Oswaldo Militão

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